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sábado, 15 de abril de 2017

Portugal. O “SUCESSO” DE MANUEL DIAS LOUREIRO


Querer arvorar-se em vítima e dizer que foi alvo de um processo que revela o ódio dos portugueses pelo sucesso só pode ser uma anedota.

Manuel Carvalho | Público | opinião

Em mais um notável harakiri, a Justiça abriu a página ao milagre da transformação de Dias Loureiro de vilão em vítima. O responsável por negócios ruinosos que hoje estão a ser pagos pelos contribuintes, não foi acusado no âmbito de um inquérito que durou oito anos porque, "não obstante as diligências realizadas, não foi possível reunir prova suficiente". Mas, para que não ficássemos a pensar que a impotência da investigação se deve à incompetência dos que a conduziram ou, quiçá, do próprio sistema de Justiça, o despacho de arquivamento entra em delírio ao sinalizar que "subsistem as suspeitas, à luz das regras da experiência comum" que apontam para o facto de que “o objectivo dos negócios foi tão só o enriquecimento ilegítimo de terceiros à custa do prejuízo do BPN, nomeadamente de si e do Dr. Oliveira e Costa..." Foi o suficiente para que meio mundo se empenhasse a vituperar (com razão) a Justiça e a manifestar dor e dó (sem causa) pela triste sina de Dias Loureiro.

Não há que duvidar: num estado de Direito, só os tribunais podem determinar culpabilidade ou inocência face ao que estipula a lei. E como entre uma e outra condição não pode haver zonas cinzentas, o despacho do Ministério Público é uma aberração. Mas na vida pública há muita vida para lá da que a esfera da lei aceita ou proíbe. Há margem para que cada um de nós formule juízos sobre ex-ministros baseados nos danos causados pelos seus actos à comunidade. E, principalmente, há margem para que cada um de nós possa fazer um juízo moral sobre as cavalgadas de políticos que ficam subitamente milionários e passam a fazer negócios com empresários misteriosos (para sermos simpáticos) com interesses em Marrocos ou em Porto Rico. Dias Loureiro é inocente à face da lei, mas é culpado pelo seu envolvimento em operações obscuras que fazem parte de uma tragédia, a do BPN, que vai custar ao país seis ou sete mil milhões de euros. Ignorar esta realidade é alimentar a cultura de relativismo e condescendência que ajudou a criar a desgraça em que vivemos.

Ao deixar no ar a ideia de que foi apenas a complexidade dos procedimentos ou os labirintos processuais a determinar o arquivamento do inquérito, o Ministério Público investe-se do papel de um zelador dos costumes empenhado em orientar o rebanho para uma sentença cívica ou moral. Um abuso das suas competências e, obviamente, uma estupidez. Dias Loureiro percebeu-o. E numa entrevista ao Diário de Notícias, onde teve todo o espaço do mundo para se fazer de vítima e quase espaço nenhum para explicar os negócios da Biometrics ou da Redal, tratou de explorar esse flanco. “O efeito que se pretende é que a opinião pública [me] continue a condenar”, disse. E condenar porquê? Porque “em Portugal há um pecado que não tem perdão, que é o ter sucesso”, acrescenta Dias Loureiro. Sucesso? Que sucesso?

Dias Loureiro fez o seu percurso depois de se formar e até ao momento em que telefonou ao pai a dizer que era ministro, nada indica que lhe tenham faltado empenho, trabalho árduo e mérito. Mas, um pouco à semelhança de outras criaturas do cavaquismo deslumbrado (nem é preciso falar de Duarte Lima), Dias Loureiro quis ter muito “sucesso”. Coisa que, bem se sabe, exige tempo e custa a conquistar. A menos que lhe fosse possível usar o capital político acumulado para gravitar nessa densa e estranha galáxia dos jogos de influência. Aí, o “sucesso” foi tanto que entre 2000 e 2007 Dias Loureiro conseguiu já arrecadar a simpática conta de 12,4 milhões de euros, lê-se no despacho de arquivamento do DCIAP citado por Luís Rosa no Observador. Estava portanto na hora de dar o salto. Qualquer arrivista ou candidato a arrivista gostaria de pisar os tapetes da grande arena da velhacaria nacional em que se transformou a banca e foi esse o destino de Dias Loureiro. À época, recorde-se, Oliveira e Costa ou Ricardo Salgado eram deuses que qualquer manga-de-alpaca com gula e rins para jogadas de risco gostavam de venerar.

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