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domingo, 30 de abril de 2017

PORTUGAL À SOMBRA DE AMBIGUIDADES AINDA NÃO ULTRAPASSADAS – II


Em saudação aos 60 anos do MPLA, aos 52 anos da passagem do Che por África e aos 43 anos do 25 de Abril… e assinalando os 50 anos do início do “Exercício ALCORA” e os 50 anos do início da Guerra do Biafra.


3- Há 50 anos, em Abril de 1967, (dois anos depois da passagem do Che pelo Congo e do início da primeira linha da frente progressista e informal entre Dar es Salam e Brazzaville, envolvendo e apoiando os esforços da FRELIMO e do MPLA), o “Ministro da defesa sul-africano Pier W. Botha”visitou secretamente Lisboa, avistando-se “com Salazar, com Franco Nogueira (Negócios Estrangeiros), Gomes de Araújo (Defesa) e Silva Cunha (Ultramar)”, dando “início formal do apoio militar da África do Sul à guerra colonial em Angola (leste e sudeste) e Moçambique (Tete), sob impulso e inspiração doutrinal do célebre general A. P. Fraser, teórico da contrassubversão, recém-empossado como chefe das Forças de Combate Conjuntas da África do Sul”… (Prefácio à Primeira edição do livro “ALCORA – O acordo secreto do colonialismo”, pag. 10, Fernando Rosas).

O início do Exercício ALCORA ocorreu precisamente na mesma altura do início da Guerra do Biafra (1967/1970) e integrando ingredientes sócio-políticos comuns no âmbito da formulação da internacional fascista na parte austral do continente africano.

Sob os pontos de vista ideológico e doutrinário, começava a haver uma aproximação entre as linhas maoistas e trotskistas, à esquerda e as mais reacionárias linhas da ortodoxia “cristã-ocidental”, na sua “cruzada” contra o comunismo, representado pela “ameaça soviética” e seus aliados.

Para o baluarte da internacional fascista, era imprescondível, “contra os ventos de mudança” que alimentavam o “perigo comunista”, “defender a civilização cristã ocidental”!…

O Governo de Salazar correspondia no Biafra às projecções da Aginter Press (componente das“redes stay-behind” da NATO, que integrava remanescentes nazis e fascistas da Alemanha, França e Itália, com vocação na América Latina e em África), pelo que aos enlaces comuns (a que se adicionaria a influência directa do “Le Cercle” por via do estímulo da então multinacional francesa do petróleo ELF Aquitaine), determinaram geoestratégias comuns que na África Austral potenciaram o Exercício ALCORA, no quadro dos interesses da internacional fascista (a ter presente “A guerra secreta de Salazar em África”, da autoria de José Manuel Duarte de Jesus, diplomata português e Inês de Carvalho Narciso).

O Biafra foi um teste de intervenção comum, tal como o apoio a Tschombe no Katanga, que aproximou Salazar do “apartheid”, uma pista que os autores do “ALCORA – O acordo secreto do colonialismo” não exploraram, apesar de essas terem constituídos experiências prévias ocorridas imediatamente antes, que testaram o que se iria forjar a sul.


No Katanga e no Biafra foi estimulado desde logo o carácter secreto de múltiplas iniciativas do Estado Novo e do “apartheid” em relação a África, incluindo operações de inteligência contra os Movimentos de Libertação em “territórios vizinhos” do próprio Exercício ALCORA, que obrigavam a conexões dos serviços diplomáticos e de inteligência de forma conjugada, em direcção aos pontos de apoio principais do Movimento de Libertação (Brazzaville, Kinshasa, Lusaka e Dar es Salam).

A internacional fascista na África Austral teve no Exercício ALCORA a sua formulação geoestratégica, proporcionando a integração de todos os elementos afins colectáveis (desde os aspectos físico-geográfico-ambientais em função das diversas bacias hidrográficas da toda a região, até ao agenciamento humano conforme o caso de Savimbi, desde logo afectado pelo âmbito“introdutório” da Operação Madeira).

Os principais cabos de guerra intervenientes no Exercício Alcora foram tocados pela influência ideológica e sócio-política do “Le Cercle”: o general Charles A. P. Fraser (África do Sul), o general Kaulza de Arriaga (em Moçambique), o general Costa Gomes (Angola) e ainda o general António Spínola (na Guiné Bissau), o que permitiu a aproximação das linhas de tendência maoista (em ruptura como marxismo-leninismo desde 1958) e trotskista, das linhas democratas-cristãos ultra conservadoras, uma “escola” que sobreviveria ao colonialismo e ao “apartheid”, por que, não pondo o imperialismo hegemónico em causa, eram nutrição a favor da globalização neoliberal.

A linha da frente progressista informal entre Brazzaville e Dar es Salam, resultante dos enlaces do Movimento de Libertação (MPLA e FRELIMO sobretudo) com os revolucionários cubanos que seguiram em duas colunas o Che, “justificava” a formação da internacional fascista aplicável aos termos geoestratégicos do Exercício ALCORA, pelo que Savimbi se haveria de sentir “como peixe na água” na sua contínua subversão armada em relação a Angola e a África (Austral, Central e Golfo da Guiné).

4- O Exercício ALCORA previa a definição de:

- “Países ALCORA”, os signatários do acordo;

- “Territórios ALCORA” em função dos Governos signatários do acordo (África do Sul, Rodésia, Angola e Moçambique);

- “Países com influência na segurança dos seus territórios”, como os casos do Botswana, Suazilândia, Lesoto e Malawi;

- “Países vizinhos com fronteiras com territórios da África Austral”, tendo em conta a definição em termos políticos de “África Austral”, como a Tanzânia, a Zâmbia, a República do Zaire, a República Popular do Congo e a República Malgache. (Pag 245, “Conceito estratégico militar para os territórios ALCORA, Anexo C”).

Essa consideração obrigava aos signatários do acordo, entre outros, a expedientes de inteligência (“segurança”) nesses “países vizinhos”, facto que dadas as experiências comuns, anteriores e correntes (Biafra e Zaíre), não negligenciaram e em alguns casos, como o de Jorge Jardim (tirando partido do seu relacionamento com o Presidente Hastings Banda, do Malawi que propiciava a aproximação ao Presidente Kenneth Kaunda na Zâmbia consumada em 1973, precisamente quando eclodiu a Revolta do Leste no seio do MPLA, sob liderança de Daniel Chipenda), tendo mesmo como base um dos “países com influência de segurança”, para melhor chegar e equacionar acções nos“países vizinhos”.

A abrangência da UNITA, como a transitoriedade dos “Flechas” sob chefia do Inspector da PIDE/DGS Óscar Piçarra Cardoso, tal como a “transferência” e “absorção” dos efectivos às ordens de Daniel Chipenda tiveram assim garantida origem desde logo, no quadro do “conceito estratégico”do Exercício ALCORA, uma verdadeira antecipação à que viria a ser a “guerra de fronteiras” que implicou mais tarde, depois do desaparecimento do colonialismo português, na constituição da Linha da Frente formal contra o “aparheid”.

Em relação a Savimbi o processo introdutório foi a Operação Madeira cujos efeitos foram aproveitados muito para lá da permanência desse colonialismo português, o que explica por exemplo e tanto quanto o foi possível, a “repescagem” de sua figura e papel (no que a Angola dizia respeito), pelos Presidentes portugueses Mário Soares e Cavaco Silva, uma vez que além do mais Savimbi foi estimulado pelo “apartheid” (e ainda pela CIA dos estados Unidos), a ganhar capacidade própria (com cobertura particularmente do “lobby” dos minerais até quase ao fim de sua vida), tirando partido de nexos pré-estabelecidos com os Presidentes Mobutu e Kenneth Kaunda.

A tentativa paulatina de aproximação de Savimbi ao Presidente Nelson Mandela, com resultados pouco animadores uma vez que o Presidente zairense Mobutu e o seu estado autocrático estavam em “fase terminal” , deve ser encarada como uma “inércia” dessas projecções, após o fim do“apartheid”.

A consultar de Martinho Júnior:
Eleições na letargia duma colónia periférica – http://paginaglobal.blogspot.com/2013/10/eleicoes-na-letargia-duma-colonia.html
Neocolonialismo em brandos costumes e dois episódios – http://paginaglobal.blogspot.com/2017/03/neocolonialismo-em-brandos-costumes-e.html
Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – I – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/04/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda.html

Outras fontes:
Lista de entidades do “Le Cercle” – https://isgp-studies.com/le-cercle-membership-list
La guerra secreta en Portugal – http://www.voltairenet.org/article170116.html

Imagens: Capa do livro “ALCORA – o acordo secreto do colonialismo”; “Rogue agentes”, livro que descreve a acção do“Le Cercle”; “A guerra secreta de Salazar em África”, da autoria do diplomata português José Manuel Duarte de Jesus e de Inês de Carvalho Narciso; “Os exércitos secretos da OTAN”, onde se inscreve a “Aginter Press”, da autoria do historiador Daniele Ganser; o general Spínola, que tinha ligações ao “Le Cercle”, tal e qual acontecia com Charles A. P. Frasier ao serviço do “apartheid” na África do Sul.

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